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Uma dupla de hip-hop português que explora e inova, os Smoke Hills lançaram em 2020 "O Homem do Século XX".

Entre o fumo, subir a colina dos “Smoke Hills”

Francisco Trindade, 22 anos, e Pedro Vieira, ou “Patcho”, 21 anos, compõem o grupo de hip-hop Smoke Hills. “Patcho” para além de nome artístico, simboliza também um alter-ego que “faz coisas que o Pedro não”, ganhando vida através da música. Smoke Hills surge através do nome de um grupo de Whatsapp que ambos integravam, intitulado “Fumar Mata”, em inglês “Smoke Kills”, originando o trocadilho pela semelhança das expressões.

Os dois são estudantes, um de humanidades e outro de ciências no secundário, ambos neste momento a tirar mestrado em Comunicação Audiovisual, na ESMAD, em Vila do Conde. Começaram a trabalhar juntos na música “quase por acidente”, “uma brincadeira”, testando com beats que tiravam da Internet e apalpando o terreno até começarem a produzir música a um nível superior.

Ambos de Viseu, com a cidade a influenciar um pouco da lírica e das histórias contadas pelo grupo, “o Monte Salvado é um sítio em Viseu, se não fossemos de cá provavelmente teria outro nome”. Com um estúdio “improvisado” situado no centro de Viseu, aproveitaram materiais de gravação que o Francisco tinha e computadores para produzirem a sua música, que surge de forma bastante orgânica, começando no Pedro.

Os improvisos e os flows puxam a temática, guiam a “vibe” da música, levando “Patcho” a escrever sobre o que lhe surge no momento, evitando raciocinar demais no assunto, com ajuda de diferentes produtores e beats que ambos vão escolhendo, sem fechar a porta a uma possível colaboração mais contínua com um produtor apenas. Francisco trabalha na mistura de som, adição de efeitos, pegando naquilo que Pedro “constrói”, aperfeiçoando-o e tornando-o o produto final, também com input do Pedro.

Porquê o hip-hop? Um género musical que dá muita margem “para explorar” e descobrir novas coisas para fazer, mesmo que não seja o que domina a discografia de eleição de cada um, sendo ambos muito ecléticos no seu gosto musical, desde heavy metal a folk, encontrando no hip-hop um ponto comum. A diversidade é um elemento chave nas músicas, evitando formatos tradicionais do hip-hop, encadeamentos alinhados com versos e refrões fixos, preferindo seguir outro caminho. Músicas que podem ter um refrão, mas em momentos diferentes, menos ortodoxos das músicas, ou até sem refrões sequer. “Fazer hip-hop lírico não nos ia dizer muito (…) não nos ia realizar muito como artistas (…) como ouvimos muita música para além do hip-hop, quisemos adicionar essa musicalidade ao que fazemos (…) tentar manter a nossa estética.”

A importância do que ouvem baseia-se numa pluralidade de nomes, nacionais e internacionais, entre os quais se destacam: Kanye West, JPEGMAFIA, Corona, Allen Halloween, Chico da Tina, Fausto Bordalo Dias King Gizzard & The Lizard Wizard, Tool, Idles, Death Grips. Uma simbiose baseada no gosto musical e no ecleticismo do ouvido de cada um “uma das coisas que gosto de trabalhar com o Pedro é que produzimos músicas que eu gostaria genuinamente de ouvir”.



O horizonte visto e por ver no cume da colina

Enquanto que o projeto mais longínquo está afastado do rap e tem uma natureza mais experimental, sendo uma divagação que pode abrir portas para aquilo que os Smoke Hills poderão também fazer no futuro, em parceria com um artista chamado “Marco-Íris” e o seu trabalho com a guitarra. Ambos deverão sair este ano, revelaram os artistas pela primeira vez, à Tracks.

O que ambicionam os Smoke Hills? Para Francisco seria atuar no Vodafone Paredes de Coura, festival que frequenta regularmente e seria um orgulho pessoal estar do outro lado, tal como obter o reconhecimento de vários artistas que costumam ouvir, “artistas de culto”. Pedro, ou “Patcho” quer atuar onde quiser e encher esse mesmo sítio, “há sempre alguém que me queira ver”, sendo uma referência musical, mas evitando o excesso da fama e da popularidade, conseguindo, num plano mais realista, “conseguir fazer vida disto”. Ambos dividem os estudos e a música na sua vida, mas com um equilíbrio bem conseguido, um motivo de orgulho pessoal.

Os Smoke Hills têm o seu verdadeiro arranque com o primeiro confinamento pela pandemia de Covid-19. O primeiro projeto, “O Homem do Século XX”, três músicas, um mini-projeto, que serviu de “cartão de boas-vindas, um aquecimento” para o “Monte Salvado”, surgindo de forma natural e até beneficiando o álbum que o sucedeu, mais no fim do ano, pois “O Homem do Século XX” saiu no verão de 2020.

Entre vários concuros, os Smoke Hills participaram nos Super Emergentes, no Music Unlock, no Termómetro, com o último a garantir-lhes uma atuação ao vivo no festival Termómetro. O primeiro concerto oficial foi na casa de um produtor com quem trabalharam e depois estiveram em Viseu, naquele foi a primeira vez que atuaram para o um público que não estava familiarizado com a sua música, seguido de algumas atuações online e uma na POQ (“Paga-lhe o Quarto”, o estúdio de Keso).

“A única coisa que nos tem impedido é mesmo a pandemia, porque têm surgido propostas, falta só a abertura”, os Smoke Hills estão prontos para dar a conhecer a sua música ao mundo, e estão neste momento a trabalhar em dois projetos em simultâneo. O que está mais perto de sair está numa fase de aperfeiçoamento, “aquilo que o Monte Salvado não era, já não é uma exploração de vários estilos”, sendo a afirmação do grupo e um passo à frente na sua musicalidade.


Perfil traçado por Carolina Chora Alves, Daniel Moura Borges e José Pedro Horta.

20 de Janeiro de 2021