M3DUSA

Inês Abreu, 24 anos, Inês Condeço, 25 anos e Mónica Caldeira, 25 anos, juntaram-se para desconstruir mitos e quebrar barreiras na área do feminismo e viram na música o veículo perfeito para o fazer, formando o projeto M3DUSA.

A sua luta

Este trio de DJ’s que se propõe a promover música de artistas exclusivamente femininas e queer, dá-nos mais do que uma boa noite de dança, música e boa disposição. Através do seu trabalho, somos confrontados com o male gaze dentro da música e do trabalho de DJ. O próprio grupo relata as diversas vezes em que o seu trabalho foi questionado : “Mas não se torna repetitivo só ouvir vozes femininas?” “Mas assim estão a excluir os homens e música é para todos!”.

Gostariam elas, e também nós, que as mesmas perguntas fossem feitas quando na maioria das noites de copos e discotecas o padrão dita que se passar uma música de uma artista feminina já vamos com sorte.

Desde cedo repararam na falta de visibilidade que as mulheres têm na área da música, em particular na posição de DJ. Existe uma falta de conhecimento de artistas femininas e por isso não faria sentido que o seu projeto não tentasse colmatar essa questão.

Criando um ambiente divertido em que possam ao mesmo tempo transmitir a sua mensagem, desde sempre que afirmaram qual o objetivo do seu projeto, que se revelou logo na escolha do nome.

Inspirando-se na figura mitológica da Medusa, quiseram essencialmente desconstruir o mito em torno desta figura. Vista regularmente como a mulher zangada, má e que odeia os homens, facilmente estas características nos lembram o estigma associado às feministas. A mulher feminista como algo relacionado a um conflito, à raiva e ao ódio aos homens tem de ser desconstruído porque não corresponde à realidade.

Inês Condeço relata que antes da sua entrada para a faculdade não tinha muita noção do que era o feminismo e que tal como ela existem muitas outras raparigas. Ainda é necessário desmistificar este conceito onde o objetivo não passa pela ideia de mulheres como superiores aos homens, mas sim que se alcance a igualdade entre uns e outros.

 

A Medusa provavelmente não seria também esse ‘monstro’, tal como a caracterizaram. Como muitas mulheres nos dias de hoje, foi cunhada com tais características por homens, que perante a sua atitude mais assertiva e após ser considerada culpada, mesmo quando é na verdade a vítima, não hesitaram em denegrir a sua imagem através da mitologia assim que esta deixou de ser considerada bela, o que também traz a abordagem da ideia de imaculação da mulher antes de ser deflorada como o auge da sua beleza e perfeição e a passagem para um estado inferior, de ‘monstro’, de fealdade quando já não é imaculada.

Igualmente em Mónica Caldeira e Inês Abreu não houve um momento click, mas sim a perceção de que sempre houve este problema ao longo do seu crescimento, simplesmente de repente perceberam que essa questão que tentavam entender há tanto tempo tinha um nome, que o feminismo começou a ser entendido como ‘é isto que defendemos’.

Vivendo na dualidade e na liberdade de fazer o que é mais ‘feminino’ e o que é mais ‘masculino’, no constante questionamento do mundo e das situações de injustiça entre rapazes e raparigas e na forma como ambos eram punidos de formas diferentes pela mesma ação durante a infância, todas pretendem hoje integrar a questão do feminismo no seu dia-a-dia, vistas muitas vezes como “as chatas”, mas tal como Mónica Caldeira denota: “há lutas que uma pessoa sabe que não vai totalmente vencer, mas é preciso insistir”.

DJ's com causa

Na música viram o meio perfeito para transmitir estes ideais, estas questões, estes ‘mas porquê?’ que o lugar de ser mulher na sociedade nos faz colocar.

O trio concorda no facto de que a música é uma arte muito diversificada, está presente na vida de toda a gente e que os artistas musicais estão cada vez mais sensibilizados para a questão do feminismo. Para além disto, a acessibilidade da música é incomparável, pois qualquer pessoa ouve mais facilmente uma música sobre feminismo do que vai a um museu observar uma exposição sobre o tema ou lê algo relacionado com o assunto.

Assim, aliando diversos factores como o entretenimento, a acessibilidade, a democratização no acesso à música, a possibilidade de transmitir a mensagem que pretendem e uma mais fácil compreensão do assunto através deste meio, viram nascer este trio de DJ’s, que teve ainda momentos precedentes dinamizados por Mónica Caldeira e Inês Condeço, as ‘Girl Talk’, e uma intervenção de Inês Abreu como DJ a passar apenas artistas femininas.

 

Quando se aperceberam do objetivo comum nestes dois momentos, constataram que só faria sentido reunirem-se as três no projeto M3DUSA, que arrancou em Agosto/Setembro de 2019.

Nas suas influências e inspirações musicais, denotam que apesar de ouvirem todas um género comum de música, ao mesmo tempo divergem nas ramificações dentro desse género, contando todas com diferentes backgrounds.

Se por um lado vemos em Inês Condeço a vertente mais pop, em Mónica encontramos uma onda mais alternativa e de artistas desconhecidas, juntando-se ainda uma esfera mais old school e de músicas latinas que Inês Abreu oferece.

Não fugindo à praxis de iniciarem os seus sets com a música “Medusa” da Capicua, contam intemporalmente com Destiny’s Child e Jill Scott, mas não deixam de lado artistas como Doja Cat, Beyoncé, Nenny, Anitta ou Ciara, entre outras.

Denotando o recente desenvolvimento e visibilidade que o hip hop tuga tem ganho, não deixam de alertar para o facto de ainda muitas artistas serem ocultas, como se apenas um ‘nicho’ que passa nas rádios mais comerciais existisse, como se o sistema não desse espaço a novos artistas.

Passando um dos seus grandes objetivos por atuar em espaços mais mainstream onde ainda existe uma certa male dominance, pretendem igualmente que o seu público (tal como todo o movimento feminista) se aperceba de que o seu trabalho não é feito apenas para mulheres, mas sim para todxs, sendo sem dúvida uma das maiores dificuldades chegar ao público masculino.

Procurando a mudança

A tripla de DJs trouxe uma conversa acerca do papel da mulher na indústria portuguesa com Mariana Duarte Silva, co-fundadora do Village Underground, a artista AMAURA, a beatmaker Trafulha e a jornalista Núria Pinto, existindo ainda uma exposição da ilustradora Mariana Simão, a curta-metragem de Leonor Bettencourt Loureiro e um DJ set das próprias M3DUSA.

Este foi o culminar de um desejo que já tinham há mais tempo, de passar a sua mensagem para outros formatos para além do musical, em particular através do diálogo, pois sentem a urgência e necessidade que a discussão destes assuntos tem, para que se possam ultrapassar certas barreiras e estereótipos.

Em linha com este desejo, vem também a promessa da realização de um futuro podcast, onde o trio, já elogiado pelas capacidades de comunicar assuntos tão importantes de forma tão informal e descontraída, e cada vez mais incentivado, se propõe a fazer parte de uma nova Lisboa onde se possam ouvir mais vozes femininas e onde se possam discutir abertamente questões ainda muito tabu e estigmatizadas, onde se possam reunir diferentes pessoas, de diferentes sectores da sociedade, com diferentes idades, mas com um objetivo comum: a igualdade.

 


Os sets das M3DUSA só podem ser ouvidos ao vivo.


Perfil traçado por Carolina Chora Alves, Daniel Borges e José Pedro Horta. Agradecimento especial a Rita Madeira.

20 de Julho de 2020