joão granola portugal

O cantautor nacional João Granola aplica o folk moderno à lusitanofonia e obtem um conjunto fantástico de sons acústicos que se traduzem no seu último álbum, Os Moderados.

Do Cartaxo a Lisboa

João Machado, 33 anos, toma o nome artístico de João Granola para compôr, produzir e gravar o folk alternativo português que o distingue. Nasceu e cresceu no Cartaxo, no distrito de Santarém, onde acabou o 12º ano e onde teve formação em teoria musica. Aprende a tocar baixo elétrico e guitarra aos 14 anos, influenciado pela presença musical das filarmónicas religiosas, constituindo várias bandas na área.

Começou com Pintarolas, uma banda punk de letras cómicas que lançou um álbum chamado Vai João. Entretanto conta-se também o lançamento do EP My Flying Grandma e acaba por integrar a banda de rock AMBAR, que em 2016 lançou o álbum No entanto, ela move-se.

João trabalha na Portugal Inovação Social, tendo-se licenciado em Gestão no ISCTE e terminado o mestrado em Ética e Responsabilidade Social Corporativa em 2010 também no ISCTE e em Macau. Na sua profissão atual tratou do desenho e da implementação de um fundo de investimento para inovação social que agora gere.

Foi em Lisboa que teve início AMBAR e é onde vive atualmente o artista. Trabalha agora no seu projeto a solo João Granola, mantendo sempre, no entanto, a ligação ao Cartaxo e ás raizes, bem como à família. A vida do artista sempre se desenvolveu entre as duas cidades, com a influência das irmãs que o levavam a ver concertos de bandas internacionais a Lisboa.

João Granola

'A minha vida é que se encaixa no projeto'

O primeiro EP lançado sob o título João Granola foi O Convidado no final de 2017. A ideia surgiu durante um hiato na vida profissional e de artista em que João decide lançar-se como cantautor a solo, numa tentativa e abertura ao universo musical que não era permitida pelo género niche de AMBAR.

A O Convidado seguiu-se uma tour por Portugal e a preparação para o próximo lançamento, já em 2018 – o processo de escrita, composição e pré-produção do que viria a ser Os Moderados. No entanto, a produção do álbum foi sendo adiada por fatores pessoais, profissionais e técnicos, forçando o álbum a ser lançado apenas em Fevereiro de 2020.

João Machado é João Granola e vice-versa. Embora o projeto possa ter algumas consequências materiais na sua vida profissional, João admite que sempre terá a música presente na sua vida e que o conteúdo continuará a sair ao ritmo que a sua vida permitir. Os álbums para vir serão mais afastados do folk e mais focados na desconstrução da música e na experimentação, mas o artista garante que João Granola será sempre canção. Acrescemta que mesmo que não fosse a música o seu meio de criação, sempre estaria a criar – essa é a parte importante.

joão granola artista
joão granola artista

O processo de conceção dos álbuns é bastante conciso e definido: cada lançamento trata um tema específico previamente definido. O processo de João Granola é reativo, é uma reflexão sobre as condições da vida e não um chamamento à ação. A análise dos temas é constituida por multitudes de pontos de vista através de cada canção. Desta forma, os temas não são abordados de forma unidimensional, mas nem todos os pontos-de-vista representam os do cantautor.

O Convidado, por exemplo, era uma reflexão sobre diferentes perfis de pessoas com que o autor se foi deparando e que existem com um certo tipo de frequência. As canções são narradas na 3ª pessoa porque são contadas do ponto de vista do espectador, até que a última é narrada na 1ª pessoa, como reflexão de todo o EP. A ideia era que alguém fosse espectador numa cena com estes 4 perfis.

Os Moderados

O tema de Os Moderados é evidentemente claro, mas tem uma profundeza inata. A análise de João Granola é aos moderados como massa inteligente com uma identidade coletiva. A ideia é contrariar a norma de escrever sobre os outliers e os rebeldes, e focar-se na exploração de uma classe que parece transparente mas que tem muito para dar.

A complexidade do tema está na forma como os moderados parecem uma massa homogénea de longe, mas uma vez dentro deste grupo, se consegue distinguir a heterogeneidade dentro da homogeneidade. Neste sentido, João Granola escreve sobre as diferentes perspetivas dos moderados, para dar a conhecer ao mundo a diversidade escondida ao olho exterior.

Os Moderados surge da relação dia-a-dia com este grupo e da sua aparente transparência, transformando a forma como pensamos sobre pessoas que de outra forma não entrariam no nosso fluxo de pensamento. É a tentativa de dar oportunidade de brilhar a uma massa que é negligenciada na prática cultural por não parecer interessante o suficiente.

A capa do álbum é o monumento ao indivíduo moderado e à absorção da individualidade dentro desta identidade coletiva. A calça creme e a camisa azul são colocadas como representação da farda dos moderados, no entanto são apenas uma falsa aparência, já que o interior está vazio. A lição é que cada moderado é um indivíduo, mesmo que não o aparente. A fotografia foi tirada no ateliêr plástico de Sara Maia e o artista diz-nos que é inspirada em fotografias das roupas dos pescadores japoneses, que deixam a roupa a secar quando voltam do mar, de uma exposição no museu do Chiado.


Para mais informação sobre o álbum, lê as palavras do próprio autor no segmento Track by Track

 


Podes ouvir Os Moderados completo no Spotify.


Perfil traçado por Carolina Chora Alves, Daniel Moura Borges e José Pedro Horta. Fotografias por João Granola e AMBAR.

20 de Maio de 2020